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Cinema para todos

Webdocumentário colaborativo quer repensar audiovisual em países ibero-americanos

Carlos Minuano

ARede nº52,outubro 2009 - Segundo dados da ONU, 86% dos filmes que chegam às telas dos cinemas brasileiros são produzidos por apenas 13 países. Octavio Getino, um dos grandes pensadores sobre políticas para o audiovisual ibero-americano, afirma ainda que 70% destes conteúdos são distribuídos pelas chamadas majors norte-americanas, conglomerados de mídia que dominam a cadeia do audiovisual, dos estúdios de Hollywood aos videogames, passando pelas cadeias de rádio e televisão, internet, jornais e revistas.

Mas o que de fato está por trás destes números robustos? Quais os efeitos da gigantesca e complexa estrutura cinematografica estudunidense sobre as culturas locais? Responder a estas questões é justamente o objetivo do webdocumentário Te están grabando / Você está sendo filmado. Produzido de forma colaborativa com uma câmera fotográfica digital, este ciberfilme, que será lançado em dezembro no evento Ctrl v, em Bercelona e distribuído na internet, quer repensar os rumos do audiovisual.


A proposta não é demonizar Hollywood, mas observar seus efeitos para aprender com esse processo. Outro objetivo é avaliar o interesse para o desenvolvimento das indústrias audiovisuais locais e ponderar sobre a busca por novos modelos de desenvolvimento. “Dessa mistura toda veio a ideia de fazer uma pesquisa-ação, que juntasse um videolog, um webdocumentário e a cooperação internacional no âmbito ibero-americano”, explica Leonardo Brant, diretor do filme.


Desde junho o videolog do projeto está na internet, com trechos das entrevistas produzidas. Quem quiser pode opinar, criticar e debater, contribuindo desta forma para o resultado final do documentário, que deve ser lançado ainda este ano em Barcelona, na Espanha, e logo em seguida mundialmente, através da web. “Optamos por utilizar a própria linguagem audiovisual e uma maneira de fazer que já fosse uma proposta, uma alternativa de desenvolvimento, produção, distribuição e difusão”, explica Brant.


Te están grabando / Você está sendo filmado traz entrevistas com especialistas de diferentes países. Entre eles, Neal Gabler e Edward Jay Epstein, dos Estados Unidos, Octavio Getino e Rodolfo Hermida, da Argentina, e inúmeros gestores e pensadores do Brasil, como Orlando Senna, Emir Sader, Gustavo Dahl, Ismail Xavier e Sergio Sá Leitão.


Depois das mais de 50 entrevistas realizadas, muita leitura e discussão sobre o tema, em debates e aulas sobre o assunto pelo Brasil e no exterior, Brant e sua equipe afirmam ter compreendido melhor a mecânica e os efeitos públicos de uma das mais potentes indústrias globais. “Hollywood interfere de maneira cada vez mais marcante na conformação do nosso senso de civilização e em nossa capacidade de auto-compreensão como agentes participativos de uma sociedade democrática”, observa.


“Percebi também a dificuldade para desenvolver políticas de preservação e promoção da diversidade cultural”, diz ele. Segundo ele, muitas ações acabam surtindo efeitos contrários aos imaginados. Um caso exemplar é a união do cinema nacional às majors. O longa Cidade de Deus, de Fernando Meireles, foi o primeiro do novo modelo. Em resumo, trata-se de co-produções viabilizadas a partir de incentivos fiscais concedidos às multinacionais por meio do artigo 3º da Lei do Audiovisual.


“O resultado é que, em vez de desenvolvermos alternativas ao domínio de uma indústria cara e insustentável, tentamos nos adequar a um sistema de produção que não corresponde à nossa realidade de mercado”, raciocina Brant. Para ele, além de não alcançar um aumento significativo de participação do cinema nacional nas bilheterias, esse tipo de solução acaba ampliando o mercado das majors no país.


“Continuam empurrando enlatados estrangeiros e, pra piorar, as majors ainda têm o poder de decidir quais filmes brasileiros devemos ou não assistir, já que monopolizam a distribuição e exibição no país”, explica o diretor. A mixórdia não termina aí. Todos os filmes coproduzidos pelas majors contam com a participação da Globo Filmes, ingrediente que ajuda a concentrar ainda mais os conteúdos nas mãos da Rede Globo, responsável pelo monopólio interno dos conteúdos audiovisuais.


Entender as implicações deste cenário não é tarefa fácil. “É uma investigação difícil, pois as coisas estão acontecendo ao mesmo tempo em que observamos os fenômenos”, lamenta Brant. Ele cita o caso das mudanças de comportamento de consumo e de relação com o audiovisual, provocadas pelas novas mídias e pela convergência digital.


“Sabemos que novos agentes vão entrar neste mercado e que novos mercados surgirão, mas é impossível prever o futuro próximo, sobretudo com a consolidação da banda larga como pista de veiculação de conteúdos audiovisuais”, pondera. No horizonte que o filme apresenta, é possível observar no momento atual uma oportunidade única para o desenvolvimento de novos protagonismos, linguagens e cadeias produtivas relacionadas ao audiovisual. Ao mesmo tempo, há o perigo de sermos meros reprodutores de códigos e signos controlados por interesses políticos e econômicos.



Diálogo cultural
Sem objetivos comerciais, o webdocumentário Te están grabando / Você está sendo filmado é um dos projetos da Divercult, organização internacional sediada na Espanha, que trabalha com a promoção da diversidade cultural em países ibero americanos. “Nosso objetivo é investigar práticas, agentes e métodos que contribuam para o diálogo cultural, o fomento da articulação entre os representantes destas práticas e a difusão do que for mapeado”, explica Fernanda Martins, presidente da organização.


Fernanda esteve no Brasil apresentando o projeto Conversas Diversas, plataforma de pesquisa-ação financiada pela Agencia Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid), projeto no qual se insere a produção do ciberfilme. O objetivo da Aecid, de acordo com Ana Tomé, diretora do Centro Cultural da Espanha/Aecid em São Paulo, não é o patrocínio, mas as parcerias voltadas para o desenvolvimento. “Há casos em que um apoio de logística ou infra estrutura vale mais que a ajuda financeira”, afirma. O Centro Cultural da Espanha em São Paulo/Aecid foi sede de um encontro na capital paulista, em junho deste ano, que reuniu especialistas e produtores audiovisuais de diversos países para debater a produção audiovisual ibero americana.



Guru selvagem
A relação de Leonardo Brant com a questão da diversidade cultural extrapola a produção do webdocumentário pioneiro. Ele esteve envolvido com o movimento que ajudou a construir a Convenção da Unesco sobre o tema. No âmbito internacional, foi vice-presidente da Rede Internacional para a Diversidade Cultural (INCD, na sigla em inglês), uma das organizações mais atuantes no processo, ajudando a articular artistas e intelectuais em mais de 60 países em prol do documento, um marco nas políticas internacionais em relação à cultura.


“Uma das vertentes históricas mais importantes em relação à diversidade cultural é o audiovisual”, ensina Brant. “No início tive de dedicar um bom tempo ao entendimento das políticas internacionais, do sistema ONU e de sua correlação de forças com organismos híbridos como a Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo.” Deste processo surgiu o Instituto Diversidade Cultural, atualmente denominado Divercult. “A ideia foi promover esta agenda aqui no Brasil”, recorda o pesquisador, que, no período pré-convenção, realizou uma série de encontros internacionais e escreveu um livro, o primeiro sobre o tema no Brasil. O livro em questão é o Diversidade cultural (Editora Escrituras/Instituto Pensarte), um dos três títulos da coleção Democracia Cultural, coordenada pelo próprio Brant.


Mas a experiência que o levaria a produzir os chamados ciberfilmes ocorreu na África – mais exatamente no Senegal, em uma conferência da INCD. “Nessa ocasião, descobri, por acaso, a função vídeo de minha câmera fotográfica”, conta. O webdiretor emergente, para aproveitar a descoberta, gravou uma visita à ilha de Goréia no Senegal. Ao retornar para o hotel, após descobrir um editor de vídeo que vinha junto com o sistema operacional da câmera, editou o material. “Exibimos para algumas pessoas ali mesmo na conferência e foi uma descoberta impactante para todos nós”, recorda.
Pesou, no processo criativo, a experiência que Brant já tinha em roteiro e direção de vídeo. Mas, segundo ele, a observação e a investigação do tema exigiam um caráter mais ativo e a exploração de outras plataformas. Foi então que sacou da manga sua experiência como blogueiro – há anos, ele está à frente do Cultura e mercado, blog sobre políticas culturais.


Na esteira desta experimentação pioneira nasceu o primeiro longa-metragem todo feito com uma câmera fotográfica digital, Os quatro elementos em si ou o guru selvagem. O filme registra uma turnê de Jorge Mautner e Nelson Jacobina aos rincões mais remotos do país. Com orçamento inferior a R$ 5 mil, o ciberfilme ficou uma semana em cartaz no Santander Cultural, em Porto Alegre, concorreu na seção competitiva para novos diretores da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2007, e foi exibido em cerca de 30 Pontos de Cultura, em várias capitais do país, dentro do projeto Cultura Viva do Ministério da Cultura.

www.teestangrabando.net
www.divercult.net
www.incd.net
www.culturaemercado.com.br

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